Fundir ciclos para esconder o vazio: quando a reforma evita discutir o ensino básico

António Teodoro — Fundir ciclos para esconder o vazio: quando a reforma evita discutir o ensino básico — Expresso, Opinião, 24/fev

O Governo anunciou a intenção de fundir o 1.º e o 2.º ciclos do ensino básico, criando um ciclo único de seis anos. A proposta é apresentada como resposta a um problema real: a transição difícil entre o 4.º e o 5.º ano.

No entanto, ao concentrar o debate nessa rutura específica, a política educativa volta a cometer um erro recorrente: fragmenta a análise e evita discutir o essencial — o sentido, a coerência e as finalidades do ensino básico no seu conjunto, ao longo dos seus nove anos.

O ensino básico é, por definição legal e política, uma etapa unitária de formação comum. Os seus nove anos deveriam garantir a todas as crianças e jovens um núcleo sólido de conhecimentos, competências intelectuais, culturais e cívicas, independentemente da escola ou do contexto social. É à luz dessa missão que qualquer reorganização deveria ser pensada.

Ao isolar a discussão nos dois primeiros ciclos, o Governo desloca o foco do problema e transforma uma questão estrutural num ajuste administrativo.

A dificuldade sentida por muitos alunos na passagem para o 5.º ano não resulta apenas da mudança de ciclo. Resulta, sobretudo, de um ensino básico construído por justaposição de reformas parciais, currículos instáveis e orientações pedagógicas frequentemente contraditórias.

O problema não é onde termina um ciclo e começa outro, mas a ausência de uma progressão curricular clara, exigente e coerente ao longo dos nove anos.

Nas últimas duas décadas, o ensino básico foi alvo de sucessivas revisões: metas curriculares, aprendizagens essenciais, flexibilização curricular, novas literacias, educação para a cidadania, competências do século XXI. Cada iniciativa, tomada isoladamente, podia fazer sentido.

No seu conjunto, produziram um currículo denso, fragmentado e difícil de apropriar pelas escolas. É este quadro que deveria estar no centro do debate público — e não a simples fusão de ciclos.

Ao anunciar uma reorganização estrutural sem uma discussão aprofundada sobre o currículo global do ensino básico, o Governo corre o risco de repetir um padrão conhecido: mudar a forma sem rever o conteúdo.

A continuidade pedagógica não se constrói por decreto, nem resulta automaticamente de ciclos mais longos. Constrói-se quando há clareza sobre o que se espera que um aluno saiba e seja capaz de fazer ao fim do 9.º ano, e quando esse percurso é pensado como um todo.

Há ainda uma questão incontornável: os professores. Qualquer reforma que incida sobre o ensino básico deve partir da profissão docente como eixo central. No entanto, a proposta de fusão surge num contexto de escassez grave de professores, envelhecimento da profissão e desgaste profundo das condições de trabalho.

Discutir a reorganização dos ciclos sem esclarecer o impacto na formação, na distribuição de serviço e na identidade profissional dos docentes é, no mínimo, politicamente irresponsável.

Também aqui a fragmentação do debate é funcional. Ao falar apenas dos dois primeiros ciclos, evita-se enfrentar problemas mais incómodos: a articulação entre disciplinas ao longo dos nove anos, o papel da avaliação externa, o peso excessivo de algumas áreas em detrimento de outras, as desigualdades sociais persistentes nos resultados escolares.

O ensino básico continua a produzir trajetórias muito desiguais, apesar de sucessivas reformas — e isso não se explica pela existência de três ciclos, mas por escolhas curriculares e políticas mal resolvidas.

É legítimo discutir se a atual organização do ensino básico serve os objetivos que o país definiu para a educação. O que não é aceitável é fazê-lo de forma parcelar, simbólica e mediaticamente eficaz, mas pedagogicamente pobre.

Uma reforma séria começaria por um debate público sobre as finalidades do ensino básico, envolveria investigadores, professores e escolas, e exigiria coragem política para rever opções feitas nos últimos anos.

Fundir ciclos pode ser uma consequência possível desse debate. Transformá-la no ponto de partida revela outra coisa: a dificuldade em enfrentar os problemas de fundo do ensino básico português.

Quando a política educativa prefere rearrumar ciclos em vez de discutir o que acontece, de facto, ao longo dos nove anos de escolaridade obrigatória, não estamos perante uma reforma. Estamos perante uma forma elegante de adiar decisões difíceis.

Num tempo em que a educação é constantemente invocada como prioridade estratégica, o país merece mais do que gestos simbólicos. Merece uma visão clara para o ensino básico como um todo — e a coragem política para a sustentar.