Q’horror

Paulo Baldaia — Q’horror — Expresso, Opinião, 08/jun/2026

Alerta spoiler: Um texto irónico é aquele em que o autor afirma o oposto do que realmente quer transmitir, com o objetivo de gerar humor, provocar uma reflexão ou criticar algo.

 

Pobres que não têm trabalho, mas recebem dinheiro do Estado (incentivos à preguiça), e trabalhadores que fazem greve, porque só pensam em fins de semana prolongados, deixam as pessoas de bem à beira de um ataque de nervos. Sejamos honestos, ou se muda este estado de coisas ou este país não tem ponta por onde se lhe pegue. É um horror!

Esteve bem o chefe de governo ao perguntar à oposição se “quer ou não moralizar” os apoios sociais, doravante designados PSU. Muito bem, mesmo. Montenegro precisou de lembrar aos mais distraídos que ou há moralidade ou comem todos. É que o dinheiro não chega para tudo e — mero exemplo — os pobres dos senhorios, que colocam casas no mercado com rendas moderadas de 2300 euros, também têm direito de ir ao pote, pagando metade do que paga em IRS um trabalhador com ordenado igual.

Dar tudo aos pobres não faz sentido, até porque, como eles não trabalham e se dedicam ao ócio, acabam por gastar o dinheiro mal gasto no galão e no croissant. Esteve bem, uma vez mais, o nosso governo ao castigar os malandros dos pobres e a pôr toda a família beneficiária a fazer trabalho social “voluntário”. Estejam descansados os novos trabalhadores sociais, porque o trabalho não pago inclui transporte e alimentação grátis, como acontecia nas fazendas da Louisiana do século XVIII.

Abro aqui um parêntesis para fazer uma sugestão à ministra da Segurança Social: imaginando que os malandros vão fazer trabalhos que outras pessoas já fazem com direito ao ordenado mínimo (varrer as ruas, limpar matas, carregar tijolo), para evitar que os do ordenado mínimo fiquem com a sua vida estragada e apontados como sendo beneficiários da PSU, é melhor fornecer um colete laranja (até pode levar setinhas desenhadas) para que toda a gente saiba quem são os malandros do subsídio e, dessa forma, distingui-los dos outros pobres que trabalham de sol a sol.

Grevistas em férias

A necessitar igualmente de uma dose extra de moralidade está o direito à greve. É um horror que os esquerdalhos possam fazer gazeta só para complicar a vida às pessoas de direita. A greve nos transportes só é chata porque complica a chegada dos trabalhadores de limpeza à grande cidade, mas as greves na escola pública nos bairros VIP de Lisboa e Porto deviam ser proibidas, como são na América.

Bem pensado, a futura lei da greve devia permitir que todos os trabalhadores fizessem greve ao salário, mas não ao trabalho. Por exemplo, como o pão é um produto essencial na alimentação da Humanidade, os padeiros podiam não receber o dia, mas ficavam obrigados a fazer o pão. No caso dos transportes, já não vale a pena fazer grandes alterações na lei da greve, porque falta pouco para estar tudo automatizado e os grevistas ficarem sem direito à gazeta.

Repare neste exemplo que foi dado à estampa por um colaborador (trabalhador por conta própria) que topou o que os malandros dos grevistas pretendem com as suas gazetas colectivas. Corajosamente, o colunista trouxe para a praça pública o trauma da sua filha mais nova que — com a greve geral de quarta, o feriado de quinta, a greve sectorial de sexta, mais o sábado e o domingo — esteve cinco dias sem aulas. O pior, notou o colunista de direita, é que “a maior parte” dos colegas da filha aproveitou para “viajar com os pais”. Ora, como os malandros que podem viajar naqueles dias são os que fazem greve para ter “cinco dias de férias”, presume-se que os pais dos colegas da filha trabalham todos da escola pública e são ricos — podem não receber dois dias de jorna e, ainda assim, ir de férias.

À direita, marchar

Agora, finalmente livres do socialismo, da social-democracia e de todos os esquerdimos que os acompanharam nestes miseráveis 50 anos de corruptocracia, e já depois de derrotado o wokismo da última década, o país está a livrar-se de todos os horrores que nos atrasaram por décadas.

Com uma maioria superior a dois terços dos deputados, a caminho de uma revisão constitucional para nos transformarmos num país do século XXI, já com as portas fechadas aos estrangeiros e a nacionalidade barrada a quem não for lusitano dos sete costados, o país aproxima-se da riqueza americana com a proteção social dos nórdicos, mas em PSU. Cem anos depois de derrotar a Primeira República, estamos a fazer de Portugal grande outra vez!