Projetos I&D — 85% das candidaturas sem financiamento
02 de novembro de 2026
Os resultados provisórios do Concurso de Projetos de I&D em todos os Domínios Científicos 2025, divulgados pela FCT em 28 de outubro de 2026, expõem o subfinanciamento da ciência, em Portugal. No principal concurso nacional de financiamento da investigação, apenas 720 das 4723 candidaturas admitidas foram recomendadas para financiamento: 85% ficam sem apoio. Por isso, a Fenprof exige outra política de financiamento da ciência.
O insucesso atinge 89% nos projetos de investigação científica e desenvolvimento tecnológico (IC&DT), com duração máxima de três anos e financiamento máximo de 250 mil euros por projeto, e 78% nos projetos exploratórios (PEX), com duração máxima de 18 meses e financiamento máximo de 60 mil euros por projeto. Taxas de rejeição desta dimensão não são sinónimo de excelência científica, antes evidenciam a insuficiência do financiamento e o enorme desperdício de recursos e de tempo de trabalho investidos na preparação de milhares de candidaturas. A dotação de 104 milhões de euros deste concurso, de origem nacional (80 milhões para IC&DT e 24 milhões para PEX), não esconde o essencial: no concurso IC&DT de 2023 haviam sido disponibilizados 176,6 milhões de euros, dos quais 121,6 milhões de fundos europeus, financiando 768 projetos. Em 2025, a verba nacional para IC&DT sobe de 55 para 80 milhões, mas, sem cofinanciamento europeu, o financiamento total desta tipologia de projetos cai mais de metade, com apenas 320 projetos provisoriamente recomendados para financiamento. O Estado não está a compensar a perda destes fundos europeus com investimento nacional. Preocupa, também, a distribuição desigual dos projetos recomendados por áreas científicas: nos IC&DT, as Engenharias e Tecnologias e as Ciências Médicas e da Saúde concentram quase 45% dos projetos aprovados, contra menos de 6% nas Humanidades. Estes números exigem transparência e financiamento adequado a todos os domínios. A Federação rejeita uma política que subordine o conhecimento e a investigação fundamental à rentabilidade económica e empresarial imediata.
A política do governo está longe de responder à meta de investir 3% do PIB em I&D até 2030: em 2025, Portugal investia apenas 1,8%, segundo dados provisórios. O OE/2027 também não garante o reforço do financiamento público necessário. Esta falta de investimento reflete-se também na irregularidade dos concursos. O IC&DT de 2023, encerrado em março de 2024, só teve resultados em outubro de 2025 e em 2024 nem sequer foi aberto o concurso de projetos em todos os domínios científicos. Os resultados atuais do IC&DT de 2025 chegam dentro do prazo anunciado, mas já no final de 2026.
A entrada em funcionamento da AI², resultante da fusão da FCT com a ANI, traz nova incerteza quanto aos futuros concursos, nomeadamente no que serão consideradas as “prioridades nacionais para a Investigação e Inovação”. Neste contexto, não se podem deixar sem resposta os problemas da última avaliação das unidades de I&D: 22 ficaram sem apoio e outras denunciaram cortes no financiamento-base. E, naquelas que foram financiadas, grande parte das verbas atribuídas e contratualizadas para financiamento de 2026 continuam sem ser pagas. A estas incertezas soma-se o anúncio de que o Aliança Ciência e o FCT-Tenure não continuarão nos moldes atuais, sem alternativas concretizadas.
Num setor em que se estima que mais de 80% dos investigadores trabalham com base em vínculos precários, a insuficiência e a imprevisibilidade destas tipologias de financiamento comprometem a continuidade da investigação, das equipas e dos postos de trabalho. A Fenprof exige mais investimento público, concursos regulares, decisões céleres, taxas de sucesso superiores, financiamento de todos os domínios científicos e medidas efetivas de combate à precariedade. A ciência é um bem público, não uma mercadoria.